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Quando a histria da educao  histria da disciplina e da
higienizao das pessoas


Marta Maria Chagas de Carvalho
O tema deste artigo funciona como convite para
discorrer sobre prticas discursivas e institucionais que,
num processo histrico de longa durao, constituram a
infncia como objeto de interveno higinica e disciplinar.
Depois de Foucault, a historiografia da educao tem estado
atenta  pluralidade dos dispositivos cientficos,
religiosos, polticos e pedaggicos de disciplinarizao, na
interseco dos quais se produziu, na Modernidade, o que vem
sendo chamado de "modelo escolar" ou de "forma escolar" de
educao. Por isso, para falar da histria da educao como
histria da disciplinarizao das pessoas (penso a
higienizao como um modo da disciplina), seria interessante
espraiar-se por esse longo processo histrico que constituiu
a escola como instituio intrinsecamente disciplinar e a
Modernidade como sociedade da escolarizao.
Mas no ser isso que farei aqui. Interessa-me um
recorte muito mais delimitado. Na proliferao dos discursos
que, no Brasil, nas primeiras quatro dcadas do sculo XX,
buscaram legitimar-se enquanto saber pedaggico de tipo novo,
moderno, experimental e cientfico, pretendo configurar duas
modalidades de constituio da infncia como objeto de
interveno disciplinar.
No Brasil, a designao pedagogia da escola nova tem sido
utilizada de maneira a unificar, indistintamente, prticas
discursivas de problemtica unificao. Penso que 
233#
234
epistemologicamente interessante recortar, na proliferao
dessas prticas, modos distintos de configurao discursiva
que articulam modalidades tambm distintas de interveno
pedaggica. Para tanto, pretendo trabalhar com duas metforas
da disciplina -disciplina como ortopedia e disciplina como
eficincia.


* * *
Em duas das figuras que introduzem a leitura de Vigiar e
Punir, l-se: "L'orthopdie ou l'art de prvenir et de corriger
dans les enfants les difformits du corps". 111 Em ambas as
gravuras de N. Andry, a arte de preveno e correo 
referida  imagem da linha reta. Na primeira, uma rgua com a
inscrio -Haec est regula recti -prope-se como arte da
preveno, como regra e suposto da harmonia reinante em uma
cena de governana infantil. Na segunda, a famosa rvore
torta, toda amarrada por uma grossa corda a um pau reto
firmemente fincado no solo, explicita a ortopedia como arte
de correo da deformao. Num e noutro caso, cnone e
deformao configuram o campo das prticas de preveno e
correo. Nas imagens, o que se explicita como objeto da arte
da ortopedia no  a falta de forma, no  o informe, mas a
deformao de uma forma cannica. Em ambas as figuras, a reta
 regra e norma que constitui o desvio e a deformidade como
sua confirmao.
A hiptese que quero construir neste texto prope a
metfora da disciplina como ortopedia para dar conta das
prticas discursivas e institucionais que, no Brasil do final
do sculo XIX at, pelo menos, a dcada de 1920, buscaram sua
legitimao enquanto pedagogia moderna, cientfica ou
experimental.


111 Cf. Foucault, Michel-Surveiller et punir. Naissance de la prison. Paris, ditions Gallimard, 1975.
234#
235
Nesse perodo, talvez a mais ambiciosa e, por isso,
mais caracterizada iniciativa de implantao de prticas
ento tidas como cientficas no campo da Pedagogia tenha se
dado com a instalao, em 1914, do Laboratrio de Pedagogia
Experimental, no Gabinete de Psicologia e Antropologia Pedaggica,
anexo  Escola Normal Secundria de So Paulo 112 .
A instalao do Gabinete foi justificada por Oscar
Thompson, ento Diretor da Escola Normal, como um esforo no
sentido de fazer a Escola acompanhar "o movimento cientfico"
que se operava por toda a parte em "benefcio do ensino". Teria
o Governo do Estado entendido "a convenincia de se ampliarem os
estudos tericos e prticos da pedagogia" e, por isso, havia
criado, alm de uma Cadeira de Psicologia Aplicada 
Educao, o Gabinete. O objetivo da nova instituio
pretendia-se o mesmo de similares estrangeiras, em especial
norte-americanas: o "estudo cientfico" da infncia, entendido
como "exame metdico de todas as energias da criana 113 ".
A iniciativa de inaugurao do Gabinete no foi,
entretanto, de imediato, suficiente para implantar novas
prticas. Foi necessrio, segundo Thompson,
"buscar na Europa um especialista traquejado no assunto que
se incumbisse de ensinar ao professor a nova diretriz dos estudos,
amestrando-o tambm na tcnica, utilizao e manejo dos
instrumentos usados nas pesquisas de carater psquico. 114 "
Foi, ento, convidado o italiano Ugo Pizzoli, Diretor da
Escola Normal de Modena e catedrtico da Universidade da
mesma cidade. Com o professor, que foi encarregado de vrios
cursos 115 ,chegou o "material necessrio para instalar
adequadamente o Gabinete", maquinrio complexo para uma gama
variada de minuciosas medies. Segundo Thompson, foi devido


112 Para uma histria da insero escolar da Psicologia em So Paulo, das relaes dessa disciplina
com a Pedagogia e a Antropologia e, especificamente, para uma histria do Gabinete de Psicologia
Experimental e Antropologia Pedaggica cf. Tavares, Fausto Antonio Ramalho -A Ordem e a
Medida: Escola e Psicologia em So Paulo( 1890 a 1930). Mimeo. So Paulo, Faculdade de
Educao/ USP, 1996.

113Thompson, Oscar -" O futuro da pedagogia  cientfico". In O Laboratrio de Pedagogia
Experimental, So Paulo, Tip. Siqueira, Nagel & Comp., 1914, pp. 17 e 18.

114 Idem, Ibidem, p. 17.

115 "Logo aps a sua chegada, foram-lhe confiados o ensino e os estudos psicolgicos dos alunos de 1
e 2 ano da Normal Secundria, a direo de um curso pblico, feito uma vez por semana no jardim
da Infncia e a de um curso especial sobre o mesmo assunto, para os professores da E. Normal e
anexas." Thompson, op. cit. p18.
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ao grande interesse despertado por seus cursos entre os
professores de todo o Estado que Pizzoli foi incumbido pelo
Secretrio do Interior de fazer, "no perodo das frias de
inverno, isto , no curto prazo de um ms, um curso especial de
antropologia e psicologia pedaggica 116 ". Esse curso d origem a
uma publicao que rene as 'teses' estudadas pelos
professores que assistiram a ele, o relatrio de Pizzoli
sobre seu andamento e um Discurso de Oscar Thompson -"O
futuro da pedagogia  cientfico" -, seguido da "descrio do
Gabinete de Antropologia e Psicologia Pedaggica, ilustrada por
numerosas gravuras" 117 . A publicao inclua, ainda, um modelo
da Carteira Biogrfica Escolar elaborada por Pizzoli.
O manuseio e a leitura do livro organizado por Pizzoli
provoca, em um primeiro contato, uma reao de estranhamento.
A montagem de uma publicao especial para fazer ver o
Gabinete, com seus inmeros equipamentos, asceticamente
alinhados em mobilirio austero, com seus alunos e
professores circunspectamente envolvidos, como agentes ou
pacientes, em experincias de medio, leva  pergunta: Por
que exibir to pormenorizadamente esses instrumentos e essas
prticas de medio? Mas leva tambm a indagar sobre o
sentido das prticas que o livro detalhadamente exibe. Por
que tanto af de medir? O que ter sido tentar fazer da
pedagogia uma cincia, nessas prticas de medio?
O discurso de Oscar Thompson, espcie de Introduo que,
no livro, unifica o material publicado, d-nos algumas
pistas. Enquanto dispositivo de legitimao do laboratrio
inaugurado, o texto se organiza de modo a justificar o
aparelhamento da Escola Normal -com "meios de indagao e de
medio" -pela necessidade de construir um conhecimento
cientfico do indivduo. A idia de que as diferenas entre
os educandos requerem "meios absolutamente vrios de educao",
devendo ser "objeto de um estudo e tratamento particular" 118 
que, desse ponto de vista, comanda a constituio de uma
pedagogia cientfica. Assentada em uma pluralidade de prticas


116 Thompson, op. cit. p. 18.

117 Pizzoli, Ugo, "Duas Palavras de Apresentao" . In O Laboratrio de Pedagogia Experimental,
ed. cit.

118 Thompson, op. cit, p. 9.
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de medio, tal pedagogia se contrapunha  "velha pedagogia,
(...) abstrata, dogmtica, absoluta", que sonhava "poder
generalizar todos os princpios, universalizar todos os meios,
como se todos os indivduos pudessem para comodidade do
pedagogista e do professor, adaptar-se  frma de um s modelo
decretado" 119 .
Mas o que era, nessas prticas, produzir uma cincia do
indivduo? O que era fazer de cada criana o "objeto de um
estudo e tratamento particular"?
O resultado mais palpvel que se esperava obter das
medies no Laboratrio era uma Carteira Biogrfica Escolar,
cujo modelo Pizzoli forneceu ao Governo do Estado 120 . A
carteira deveria ser generalizada a todos os Grupos Escolares
e abranger registros acerca da vida do aluno nos cinco anos
de curso. Deveria ser elaborada e assinada pelo Diretor do
estabelecimento, pelos Professores das classes e pelo Mdico
Escolar. Deveria ser conservada durante todo o perodo
escolar do aluno pelo Diretor, que ao final do curso a
entregaria ao Governo. Constando de nove pginas, a Carteira
reunia fotografias anuais do aluno e inmeros registros de
mensuraes resultantes de observaes antropolgicas e fisio-psicolgicas,
alm de anotaes registradas como dados
anamnsticos da famlia e notas anamnsticas, estas ltimas
obtidas por exame mdico.
Esse uso escolar de procedimentos de identificao
condensa pressupostos e prticas constituintes das cincias
que lhe eram contemporneas -a antropologia, a psicologia,
a biologia, a medicina e a psiquiatria -cujas fronteiras no
eram muito ntidas 121 .  enquanto objeto cultural, que
condensa essas prticas e pressupostos, que a Carteira
Biogrfica Escolar deve ser pensada como dispositivo de
produo de um conhecimento sobre o aluno. Mais do que isto,
como dispositivo de constituio da criana enquanto aluno,
dispositivo de produo da individualidade na confluncia das


119 Idem, ibidem p. 8.

120 Sobre a Carteira Biogrfica Escolar cf. Tavares, op. cit. pp. 113 a 118.

121 Sobre a questo cf. Schwarcz, Lilia Moritz -O Espetculo das Raas. Cientistas, Instituies e
questo racial no Brasil. .So Paulo, Companhia das Letras, 1993 ; Herschmann, Micael M. e
Pereira, Carlos Alberto Messeder -A Inveno do Brasil Moderno. Medicina , educao e
engenharia nos anos 20-30. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.
237#
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medidas e dos "dados" de observao constitudos como ndices
de normalidade, anormalidade ou degenerescncia. Compleio
fsica, tipo racial, traos morais, marcas de
hereditariedade, ambiente famliar constituam um roteiro de
observao e medida e forneciam as tpicas de registro na
Carteira Biogrfica Escolar. No cruzamento dessas medidas e
observaes  que ganhava contorno o carter especfico do
aluno.
Entre os saberes de cuja confluncia emergia o
conhecimento da criana, era a psicologia que, segundo
Thompson, tinha primazia, fornecendo, " cincia da educao
dois captulos de suma importncia: a psicognstica e a
pedotcnica ". A primeira, estudando "o carater especfico da
criana nas vrias fases da vida segundo o tipo normal e anormal";
a segunda, estabelecendo "as normas traadas ao mtodo e 
didtica para o ensino se por em harmonia com a natureza
psicolgica do escolar" 122 .
Mas a psicologia no era, segundo Thompson, a nica
cincia que trazia a sua contribuio. Para figurar as
relaes entre a nova pedagogia e as cincias contemporneas
que a tornavam possvel, Thompson recorre a uma ilustrao
de Pizzoli: a "rvore pedaggica". E comenta:
"Depreende-se claramente da figura serem muitas as cincias
que formam o substractum cientfico da pedagogia. Abrange o
esquema o estudo do homem nas suas manifestaes fsicas e
intelectuais, nas suas relaes com os outros homens, isto , nos
seus atos sociais e morais.
Aparece-nos dest'arte, a pedagogia como um grande foco para
o qual converge e onde encontra o centro de sua aplicao uma
extraordinria variedade de fatos, que aprofundam razes nessas
cincias auxiliares. A pedagogia agrupa, coordena, para utilidade e
clareza do fato educativo, os elementos que as demais cincias
isolam. 123 "
A rvore de Pizzoli , sem dvida, testemunho
interessante de um modo de representar o campo epistemolgico
da Pedagogia. As razes suspensas -arrancadas do solo em
que, verossimelmente, estariam plantadas -figuram um variado


122 Thompson, op. cit. p. 13.

123 Idem, ib., p. 11.
238#
239
elenco de "cincias subsidirias": sociologia, legislao
escolar, histria da escola, anatomia, fisiologia,
antropologia, psicologia, higiene individual, higiene
coletiva, higiene da casa e da escola, ortofrenia, pedologia,
pediatria e arte didtica". Essas cincias se aglutinam, por
grupos de afinidade, constituindo veios confluentes em um
corpulento tronco que figura a Pedagogia como "cincia da
educao humana". Do tronco, -descrito por Thompson como
"grande foco para o qual converge e onde encontra o centro de sua
aplicao uma extraordinria variedade de fatos" -saem dois
sub-troncos que representam, no mais cincias pedaggicas,
mas dois processos de educao e seus frutos. O primeiro
sub-tronco, estuante de vitalidade, com galhos apinhados de
folhas e frutos, era proposto como imagem dos processos de
educao normal. O segundo, raqutico, com folhas escassas e
frutos murchos, representava os processos de educao
emendatria. Nos frutos murchos e nas folhas raquticas deste
sub-tronco, eram nomeados os destinatrios das prticas
pedaggicas emendatrias: criminosos, amorais, tarados,
idiotas, cretinos, imbecis, surdos-mudos, cegos de nascena e
deficientes fsicos.
 interessante observar que, na rvore de Pizzoli, os
processos de educao emendatria no so representados como
aplicaes diretas e no mediatizadas da raiz em que
confluam as cincias subsidirias designadas como pedagogia
emendatria -a ortofrenia, a pedologia e a pediatria. A
diviso em dois sub-troncos d-se no topo da rvore, de modo
que este funciona como princpio unificador -foco de
convergncia e centro irradiador, interpretava Thompson -,
que mediatiza a relao entre as cincias da "anormalidade
fsica e psquica" e suas aplicaes prticas, mesclando-as a
outros saberes subsidirios.
A mescla dos dois principais ramos da pedagogia cientfica
-chamados por Thompson de pedagogia anormal ou corretiva e
pedagogia normal 124 -indicia o campo em que se inscreviam as
prticas que visavam o conhecimento do indivduo. Nelas, esse
conhecimento no era resultado aproximativo de operaes com


124 Idem, ib. p. 15.
239#
240
variaes em torno de uma mdia. Conhecer o indivduo era
operar com tipologias que ordenavam a variedade dos fatos
observados e medidos de modo a subsumi-los a classificaes
tidas como derivadas da natureza das coisas. Era enquadrar o
indivduo no tipo e ler nos corpos sinais que uma cincia
determinista constitua como ndices de normalidade,
anormalidade, ou degenerao. Era classificar o tipo segundo
divises inscritas na natureza, que repartiam e
hierarquizavam a humanidade. E era -ao que indica a
recorrncia da tpica da degenerao -operar com os
parmetros postos pelas teorias raciais que, desde finais do
sculo anterior, vinham-se constituindo na linguagem
principal dos intelectuais brasileiros, no seu af de pensar
as possibilidades de Progresso para o pas e legitimar as
hierarquias sociais 125 .
Esse intrincamento das prticas do Laboratrio com os
dispositivos de saber e de poder que repartiam os homens em
classes de seres que a natureza -originria ou
evolutivamente -fazia desiguais, explicita-se de modo
exemplar no Relatrio sobre o Curso de Cultura Pedaggica,
apresentado por Pizzoli ao Secretrio dos Negcios do
Interior. Nele, Pizzoli avalia positivamente o resultado do
curso, afirmando-se convencido de que ele havia produzido o
efeito de "dar uma idia clara da personalidade normal e anormal
da criana e de fazer conhecer a tcnica mais elementar para os
exames" que compunham a programao.
O intento de dar essa idia clara da personalidade normal e
anormal da criana marca toda a programao do curso, assistido
por professores de Pedagogia, Inspetores Escolares e
Diretores de Grupos. As quarenta e seis "lies terico-prticas"
organizavam-se em torno de cinco tpicos: exame
anamnstico, fsico, antropolgico, fisiolgico e
psicolgico. Neles, a diversidade das prticas de medio
prescritas -e, de resto, ensaiadas em mltiplos usos da
variadssima aparelhagem do Laboratrio -unificava-se na
referncia a ndices e a cnones de normalidade que se
pretendiam fundados na cincia. Essa remisso constante ao

125 Cf., a respeito, Schwarcz, op. cit.
240#
241
normal e ao degenerado encontra o seu coroamento nas visitas
que Pizzoli promove ao Instituto Disciplinar e ao Hospcio de
Alienados do Juqueri, com a finalidade de estud-los "sob o
aspecto pedaggico". O Relatrio explicita o interesse dessas
visitas: no Instituto, a "oportunidade de observar alguns
indivduos com estigmas de degenerao", o que "serviu para
ilustrar o assunto da deficincia moral, tratado durante as
lies 126 "; no Juqueri, a oportunidade de observar "as mais
baixas degradaes humanas e as grandes misrias da psique".
Nesta instituio, "notveis e asss instrutivos" teriam sido
"os casos de microcefalia e de idiotia, apresentados pelo Diretor,
os quais serviram de clnica  lies tcnicas desenvolvidas no
Curso.127
Discriminar as crianas normais, das anormais ou
degeneradas era tarefa que se instalava no mago da pedagogia
cientfica que, segundo Thompson, deveria "confrontar e
distinguir os casos normais dos anormais, para cuidar de cada um
segundo o seu valor exato". Para tanto, importava no confundir
"os casos de anomalia simples com os de grave e profunda
degenerao". Pois os primeiros podiam "ser compatveis com a
natureza e fim da escola", sendo-lhes facultado "frequentar as
escolas dos normais", onde seriam "corrigidos e modificados por
mtodos especiais". J "os degenerados" devem ser "excludos
absolutamente das escolas dos normais , seja qual for a forma de
seu carater degenerativo" 128 .
Na medida em que se voltava ao conhecimento das crianas
anormais, a pedagogia cientfica era entendida por Thompson
como prtica de carter humanitrio:
"O estudo desse assunto e dos meios de correo assume cada
dia importncia maior e s ele bastaria para por em relevo o fim
humanitrio da pedagogia cientfica. Sem uma psicologia cientfica
no saberamos estudar a criana no seu carter especial, no
poderamos distinguir o aluno de inteligncia tarda do cretino, o
imbecil do idiota. Se h pouco essa criana estava perdida para a
sociedade e relegada ao manicmio a expiar a culpa dos pais, v-


126 Pizzoli, Ugo, "Relatrio sobre o curso de cultura pedaggica". In O Laboratrio de Pedagogia
Experimental, ed. cit. p. 142.

127 Idem, ibidem.
128 Thompson, op. cit. p. 16.
241#
242
mo-la atualmente, merc de um melhor estudo, entregue a institutos
especiais ortofrnicos, onde se educa e corrige para ocupar o seu
posto no convvio social..... Os casos de correo devidos 
cincia pedaggica no se praticam em prises, mas em institutos
educativos, com mtodos racionais e cientficos." 129
Prtica humanitria de distribuio cientfica das
crianas por escolas, casas de correo, hospcios ou
prises, a pedagogia cientfica, via-se, assim, constituda
como recurso de seleo e composio da clientela escolar. A
organizao de classes homogneas, um dos objetivos das
prticas de medio, era recurso de maximizao dos
resultados do ensino simultneo e seriado, ponto estratgico
do empenho das autoridades educacionais paulistas de
constituio de um sistema de educao pblica no Estado.
Mas, contraditoriamente, o intuito "humanitrio" de seleo
da clientela escolar indicia o horizonte ideolgico em que se
inscreviam as intenes polticas republicanas de levar a
educao a todos os cidados 130 . Nesse horizonte, critrios
raciais, nem sempre explicitados, traavam os limites das
boas intenes republicanas, operando a distino entre
populaes educveis, capazes portanto de cidadania, e
populaes que o peso da hereditariedade (leia-se, sobretudo,
"raa" ) era marca de um destino que a educao era incapaz
de alterar. Era nesse contexto, marcado pela ambiguidade de
um projeto de universalizao da escola em uma sociedade
excludente, que se tornavam relevantes as prticas de medio
e observao que o Laboratrio viabilizava.
Na descrio que faz do Gabinete de Psicologia e
Antropologia Pedaggica, Thompson fala sobre os usos dos
equipamentos, apontando suas potencialidades. Assim, por
exemplo, os exames "somato-antropolgicos" tinham por
finalidade "estudar a criana na sua forma externa", estudando
as "modalidades de sua funes, o seu tipo de raa, de maneira a
saber-se se o resultado desse estudo corresponde ao tipo normal
por sexo, idade e condies ticas sociais.". Por sua vez, os


129 Thompson, op. cit. pp. 16 e 17.

130 Cf., a respeito, Carvalho, Marta Maria Chagas de -A Escola e a Repblica. So Paulo,
Brasiliense, 1989 ( Col. Tudo  Histria).
242#
243
exames "esthesiomtricos" e "esthesoscpicos" eram feitos no
somente para "saber-se se a criana  ou no normal". Tratava-se
tambm de "descobrir-se um eventual desvio da norma comum" para
que pudesse ser feita, "em tempo oportuno, a cura racional." 131
Observar, medir, classificar, prevenir, corrigir. Em
todas essas operaes, a remisso  norma  uma constante. A
pedagogia cientfica, as prticas que a constituam e as que
derivavam dela caracterizavam-se, assim, por essa remisso
constante a cnones de normalidade produzidos, pelo avesso,
na leitura de sinais de anormalidade ou degenerescncia que a
cincia contempornea colecionava em seu af de justificar as
desigualdades sociais e de explicar o progresso e o atraso
dos povos pela existncia de determinaes inscritas na
natureza dos homens. E  por referncia a essa norma que a
pedagogia se fazia, nas prticas aqui analisadas, ortopedia -arte
da preveno ou da correo da deformao.
Essa pedagogia cientfica pretendia-se legtima porque
se representava fundada na natureza. Na representao de
Thompson, ela se alimentava da "seiva onde se acham os germens
de toda a realidade educativa sob a forma de preceitos tirados 
prpria natureza" 132 Assim constituda, a Pedagogia via
instaurada, no seu interior, uma diferena radical de
princpios, derivada de uma diferena instalada na natureza
da criana.
"Se educar uma criana normal -dizia Thompson - seguir
a natureza, educar uma criana anormal  cousa inteiramente
diversa, consistindo em substituir-se a natureza que apresenta, em
reparar as faltas que ela lhe acarreta e satisfazer as
necessidades que essa substituio exige." 133
Mas, nesse universo determinista, os limites do fazer
pedaggico eram evidentes, mesmo para os doutos alunos do
curso de Pizzoli:
"  preciso notar, antes de tudo, -conclua, em sua
tese, Rui de Paula Souza -que em todos os caracteres ha um
determinismo de fundo indestrutvel. Ter a pretenso de remodel-los
por completo  empresa sobre-humana e talvez iconoclstica.


131 Thompson, op. cit. pp. 17 a 23.

132 Idem, ib. p. 8.

133 Idem, ib. p 16.
243#
244
Caber  educao orientar as foras que dirigem as diferentes
naturezas, canaliz-las, refre-las, em suma adapt-las s
condies do meio.(...) Deve-se  criana o respeito  sua
personalidade: lei tantas vezes desprezada pela escola que
considera como ideal fundir em uma s frma todos os caracteres!
Esforo vo, verdadeira tarefa de Ssifo!" 134


* * *


Em 1930, Loureno Filho publica a primeira edio de
sua Introduo ao Estudo da Escola Nova, livro que reunia as
"lies" que o autor havia desenvolvido num "modesto curso que
realizou no Instituto de Educao", antiga Escola Normal
Secundria. O prprio ttulo da publicao indicia que a
aposta em uma "pedagogia cientfica", nos moldes daquela que
se ensaiara nessa escola de formao dos professores
dezesseis anos antes, se evidenciara v. Apesar de estarem
largamente fundadas nas cincias de seu tempo, especialmente
na psicologia, as novas prticas pedaggicas designadas pela
expresso Escola Nova ganhavam certa autonomia, com relao
s cincias que as subsidiavam. Segundo Loureno, o uso
adequado da expresso Escola Nova abrangia um largo
comprometimento cientfico, mas compreendia tambm uma
"reviso dos fins sociais, uma nova filosofia da educao in
extenso, uma nova compreenso da vida e da fase de evidente
transformao social" que , segundo o seu ponto de vista,
caracterizava o mundo em que vivia. 135
A partir dos anos 20, opera-se uma mutao sutil no
discurso pedaggico. Uma aposta otimista na natureza infantil
e na educabilidade da criana insinua-se como o enunciado
principal a regular as articulaes discursivas. As figuras
da deformao, que assombravam a produo discursiva anterior


134 Paula Souza, Ruy -"Contribuio para os mtodos de estudo do raciocnio nas crianas" . In O
Laboratrio de Pedagogia Experimental, ed. cit. p. 33.

135 Loureno Filho, M. B.-Introduo ao Estudo da Escola Nova. So Paulo, Cia. Melhoramentos,
1930 ( Biblioteca de Educao, v. 11).
244#
245
e que traziam a deteco e o controle da anormalidade para o
mago da pedagogia, so como que gradativamente expelidas do
campo pedaggico e produzidas como tema e objeto da
interveno de outros saberes e poderes. A chamada pedagogia
da Escola Nova entra em cena, redefinindo a natureza infantil
e o lugar do conhecimento sobre ela produzido, nas teorias e
nas prticas da educao. Essa pedagogia queria-se tambm
moderna como a que se ensaiara nas prticas do Laboratrio de
Pizzoli. Mas, embora largamente baseada na cincia,
articulava-se como saber que ganhava certa autonomia com
relao s cincias que a subsidiavam.  que os seus
preceitos, apesar de tambm "tirados  prpria natureza",
subordinavam-se a desgnios pedaggicos que no se viam mais
to constrangidos pelos determinismos que constituam o pano
de fundo daquelas prticas. A nova pedagogia era otimista.
Era aposta em uma sociedade nova, moderna, que as lies da
guerra, mediatamente aprendidas, faziam entrever como
dependente de uma nova educao, redefinida em seus
princpios e largamente baseada na cincia. Esse otimismo
pedaggico, liberado dos limites postos pelo cientificismo,
era decorrncia, como dizia Loureno Filho, de "uma nova
compreenso da vida". Era aposta no poder disciplinarizador do
progresso que essa "nova compreenso" entrevia embutido no
processo de racionalizao das relaes sociais sob o modelo
da fbrica. A regra que organiza as novas prticas
pedaggicas no deriva mais, seno mediatizadamente, da
cincia. Ele  metfora dos ritmos impostos aos corpos e s
mentes pela vida moderna, imprio da indstria e da tcnica.
Dar conta do processo de corroso gradativa das
representaes cientificistas que produziam a deformao e a
degenerescncia como limite s boas intenes pedaggicas 
perspectiva instigante para uma pluralidade de anlises.
Seria, por exemplo, interessante mapear de que modo, na
confluncia de vrios campos disciplinares e na convergncia
de orientaes tericas distintas,  produzido o soterramento
das hipteses fisicalistas e atomistas que haviam modelado
esperanas, como as de Thompson, de construir uma pedagogia
cientfica por meio de prticas similares s do Laboratrio de
Pizzoli. Seria tambm muito interessante analisar a insero
245#
246
ideolgica e epistemolgica, assim como a corroso gradual da
"lei da recapitulao abreviada", que tanta penetrao havia
tido, desde o final do sculo XIX, na Escola Normal
Secundria de So Paulo. Dispositivo de atrelamento da
pedagogia ao evolucionismo spenceriano, a "lei da recapitulao
abreviada" era, por exemplo, objeto de exaustivas tentativas
de demonstrao no livro Principios de Pedagogia, que Sampaio
Dria publicou em 1914. Nesse livro, o ento professor da
disciplina Psicologia, Pedagogia e Educao Cvica da Escola
Normal Secundria estava interessado em justificar o emprego do
"mtodo intuitivo" -pea central nas estratgias republicanas
de constituio de um sistema de educao pblica modelar em
So Paulo -demonstrando tratar-se de mtodo fundado no
princpio de que a educao deveria recapitular, no
indivduo, o processo de evoluo da humanidade 136 .
O processo de corroso gradativa dos pressupostos que
fundavam a pretenso de construir uma pedagogia cientfica
no derivou apenas, entretanto, de mutaes nos paradigmas
cientficos. No Brasil, ele foi decisivamente marcado pelas
motivaes polticas, sociais e econmicas que confluram no
chamado "entusiasmo pela educao", movimento que reuniu
intelectuais de diferentes categorias profissionais -principalmente
professores, mdicos e engenheiros -na
propaganda da "causa educacional".
Com o refluxo das correntes imigratrias determinado
pela Primeira Grande Guerra e sob o impacto das greves
operrias do final da dcada de 1910, as teorias racistas que
haviam constitudo a opo imigrantista como recurso
civilizatrio 137 perdiam um de seus pilares de sustentao. Essa
opo imigrantista se desmistificava, fazendo com que a
incorporao das populaes excludas por sua lgica perversa
se configurasse como problema posto para a escola. 138 A partir


136 Doria, A. Sampaio, Princpios de Pedagogia. So Paulo, Pocai-Weiss, 1914.

137 Cf. a respeito, Azevedo, Clia M. M. -Onda Negra Medo Branco -O Negro no
Imaginrio das Elites. Sculo XIX. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

138 Cf. Kowarick, Lcio -Trabalho e Vadiagem (A Origem do Trabalho Livre no
Brasil). So Paulo, Brasiliense, 1987 e Carvalho, Marta M. C. de-op. cit. Cf. Carvalho,
Marta M. C. de -A Escola e a Repblica. So Paulo, Brasiliense, 1989, col. Tudo 
Histria, n. 127.
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de ento, "organizar o trabalho nacional" com o recurso da
escola, "civilizando" as populaes negras e mestias at
ento consideradas inaptas para o trabalho, passa a ser o
caminho alternativo para o Progresso. No  outro o sentido
da "descoberta" feita pelos entusiastas da educao 139 na
dcada de 1920: a de que a educao era o "grande problema
nacional" por sua capacidade de "regenerar" as populaes
brasileiras, erradicando-lhes a doena e incutindo-lhes
hbitos de trabalho.
No livro Cobras, lagartos e outros bichos, Benchimol e
Teixeira 140 sustentam que o movimento protagonizado na dcada
de 1910 por mdicos e outras parcelas da intelectualidade em
favor da reforma dos servios de sade contribuiu para
sedimentar entre vrios grupos urbanos a ideologia
nacionalista e modernizante subjacente a outras aes
coletivas que convulsionaram os anos 20. Para bem compreender
o modo como isso se deu, os autores sustentam ser preciso
"aquilatar a densidade relativa que o processo histrico
conferira  palavra sade" 141 .Dizem eles:
"Desde as expedies cientficas de Manguinhos, o imaginrio
das populaes urbanas fora impregnado pelas cenas descritas,
fotografadas e romanceadas da calamidade que eram os sertes
brasileiros, povoados por criaturas corrodas por doenas.
Naqueles confins onde as oligarquias extraam sua riqueza e poder
reinava outro 142 cenrio dantesco. Sade era o prisma que refratava


139 Alude-se aqui  expresso cunhada por Nagle para designar o movimento em favor
da educao tal como se articula em uma de suas configuraes, nos anos vinte. CF., a
respeito, Nagle, Jorge, Educao e Sociedade na Primeira Repblica. So
Paulo/ Rio de Janeiro, EPU/ Fundao Nacional de material escolar, 1974. Para uma
redefinio do "entusiasmo pela educao" cf. Carvalho, Marta Maria Chagas de,
Molde Nacional e Frma Cvica: Higiene, Moral e Trabalho na Associao
Brasileira de Educao (1924-1931). So Paulo, FEUSP, mimeo, 1986, cap. 3.

140 Benchimol, Jaime Larry e Teixeira, Luiz Antnio -Cobras, lagartos & outros bichos .Uma
histria comparada dos institutos Oswaldo Cruz e Butantan. Rio de Janeiro, UFRJ, 1993, 225 p. p.

141 Idem, ibidem p. 94.

142O outro cenrio a que os autores se referem  o da pandemia da gripe espanhola que teria
transformado o cotidiano das cidades "num pesadelo com cenas literalmente dantescas, s
comparveis quelas que os europeus viveram nos tempos longnquos da peste negra". Cf. Benchimol
e Teixeira, op. cit. p93 .
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os parmetros sociais, culturais, polticos e geogrficos da
modernizao desejada por todos os grupos sociais descontentes" 143 .
No  possvel deixar de relacionar esse espetculo da
doena descrita, fotografada e romanceada s cabeas
colecionadas, como exemplares didticos para fins de
demonstrao sobre casos de anormalidade, no Gabinete de
Psicologia e Antropologia Pedaggica, em que funcionava o
Laboratrio de Pizzoli. Se essas duas prticas se
assemelhavam pelo recurso  exposio do horror, elas
diferiam em um ponto fundamental: enquanto o espetculo da
doena nas notcias das expedies de Manguinhos teatraliza,
no seu prprio movimento, o remdio para sanar o mal, a
exposio e o uso didtico das cabeas deformadas  prtica
de confirmao de que h males insanveis. A diferena entre
uma e outra prtica indicia uma mutao importante nas
representaes por meio das quais a intelectualidade
brasileira formulava a "questo nacional" e os meios de san-la.
Constituir a sade (e a educao) como problema nacional
funcionou como espcie de exorcismo de angstias alimentadas
por doutrinas deterministas que, postulando efeitos nocivos
da miscigenao racial e do clima, tornavam infundadas as
esperanas de progresso para o Brasil, pas de mestios sob o
trpico 144 . Para os novos intrpretes do Brasil que entram em
cena nos anos 20, as teorias racistas que, desde o sculo
anterior, constituam a linguagem pela qual era formulada a
questo nacional 145 ,so, assim, relativizadas por uma nova
crena: a de que sade e educao eram fatores capazes de
operar a "regenerao" das populaes brasileiras.
O movimento protagonizado por mdicos e higienistas em
favor da reforma dos servios de sade tem inmeros pontos de
contato com o promovido por amplos setores da
intelectualidade em favor da "causa educacional", nos anos 20.
No apenas porque ambos tinham como objetivos comuns a
reforma dos servios pblicos, a modernizao do pas e a
ampliao de possibilidades de participao poltica e de


143 Idem, ibidem.

144 Cf. Carvalho, op. cit..

145 Cf. Schwarcz, op. cit. cf. tambm, Ventura, Roberto, Estilo Tropical Histria cultural e polmicas
literrias no Brasil. So Paulo, Companhia das Letras, 1991.
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atuao profissional; mas, principalmente, porque sade e
educao se apresentavam, para seus agentes, como questes
indissociveis. No campo da sade, firma-se, nos anos vinte,
a convico de que medidas de poltica sanitria seriam
ineficazes se no abrangessem a introjeo, nos sujeitos
sociais, de hbitos higinicos, por meio da educao 146 . No
movimento educacional da mesma dcada, a sade  um dos
pilares da grande campanha de regenerao nacional pela
educao.
Uma das representaes do pas que a campanha
educacional teatraliza com mais frequncia  a de um povo
doente e improdutivo vegetando na imensido do territrio.
Condensando os males do Brasil nessa metfora e as
esperanas de erradicao do mal na ao de uma "elite"
dotada de poderes demirgicos, a campanha erige a questo
sanitria em ponto programtico central da obra de
regenerao nacional pela educao.
Na campanha educacional, sade, moral e trabalho
compunham o trinmio sobre o qual se deveria assentar a
"educao do povo". Montava-se, com ele, uma espcie de jogo
de espelhos: hbitos saudveis moralizam; uma vida virtuosa 
saudvel; moralidade e sade so condio e decorrncia de
hbitos de trabalho; uma vida laboriosa  uma vida
essencialmente moral e saudvel etc. Nesse espelhamento, o
trabalho aparece como sntese da sociedade que se pretende
instaurar. Sinnimo de vitalidade, o "trabalho metdico,
adequado, remunerador e salutar" era, nesse jogo de espelhos, o
antdoto para os males do pas, condensados em
representaes das populaes brasileiras como indolentes e
doentias. "Vitalizar pela educao e pela higiene toda essa
gente reduzida pela vermina a meio-homem, a um tero de
homem, a um quarto de homem" 147 era o que propunha o mdico
Miguel Couto, personagem sntese do entusiasmo pela educao
que se disseminou nos anos 20. "Regenerar" as populaes
brasileiras, por meio da higiene e da educao era a soluo


146 Cf. Ribeiro, Maria Alice Rosa -Histria sem Fim... Inventrio da sade pblica. So Paulo,
Editora Unesp, 1993. Cf. tambm Lima, Gerson Zanetta de -Sade Escolar e Educao. So Paulo,
Cortez, 1985.

147 Couto, Miguel-No Brasil s h um problema nacional-a educao do povo.
Rio de Janeiro, Tip. Jornal do Comrcio, 1927, p. 14.
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que descobriam como alternativa aos impasses postos pelos
determinismos raciais.
A "educao integral" -assentada no trip: sade, moral
e trabalho -era uma das respostas polticas ensaiadas por
setores da intelectualidade brasileira na redefinio dos
esquemas de dominao vigentes. Tratava-se, fundamentalmente,
de estruturar dispositivos mais modernos de disciplinarizao
social, que viabilizassem o que era proposto como Progresso.
Nesse projeto, a educao era especialmente valorizada
enquanto dispositivo capaz de garantir a "ordem sem necessidade
do emprego da fora e de medidas restritivas ou supressivas da
liberdade", e a "disciplina consciente e voluntria e no apenas
automtica e apavorada" 148 .


Com a disseminao da chamada pedagogia de Escola Nova,
no Brasil, as representaes sobre o papel disciplinarizador
da educao ganham novos contornos. Uma das crenas que ento
se dissemina  a de que os novos mtodos, sados do seio das
usinas, como dizia Ferrire" 149 , eram dispositivos de
organizao do meio escolar nos termos das novas mximas que
vinham reorganizando o trabalho industrial. "No momento em que
o mundo proclama mtodos de organizao do trabalho como fator
essencial de prosperidade econmica", -propunha, por exemplo, o
engenheiro Barbosa de Oliveira -a escola deveria dar aos
alunos "desde os primeiros passos (...) uma diretriz segura para
a 'racionalizao' unanimemente prescrita em todos os ramos da
atividade humana" 150 . Enrazava-se, assim, no discurso
pedaggico, o que Loureno Filho identificou como uma das
tendncias principais da nova pedagogia -o "taylorismo na
escola": "inovaes ou sistemas" que visavam "dar maior
rendimento escolar do ponto de vista da organizao das classes ou
cursos". Tal tendncia concebia a escola "como a produo das


148 Penna, Belisrio-"Soluo de um Problema Vital", in Alberto, A. A. et alii, op. cit., p. 69.

149 Ferrire, Adolfo -"A Tcnica da Escola Ativa", in Educao. So Paulo, jan. fev. maro de 1932,
vol 6.

150 Oliveira, C. A. Barbosa de-"A Escola Regional nos seus aspectos urbano, rural, martimo e fluvial" in A Escola Regional. Rio de Janeiro, Biblioteca da Associao
Brasileira de Educao/ Imprensa Nacional, 1931, p. 21.
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modernas indstrias que deve ser rpida, precisa, com perdas
mnimas de energia e pessoal 151 .
Mas, a mutao que se opera no campo pedaggico  mais
ampla do que faz crer a definio de taylorismo na escola,
formulada por Loureno Filho. Para alm dos circuitos e dos
objetos em que, de forma mais visvel, o taylorismo educativo
teve sua difuso e aplicao, disseminaram-se representaes
da vida moderna que, condensadas no modelo da fbrica,
produziam novas sensibilidades. Nesse processo, a pedagogia
deixava-se impregnar pelos novos ritmos da sociedade da
tcnica e do maquinismo. Ritmos que faziam entrever
modalidades inditas de interveno disciplinar. Assim, por
exemplo, caberia ao professor "guiar" a "liberdade" do aluno
de modo a garantir que o "mximo de frutos" fosse "obtido com
um mnimo de tempo e esforo perdidos". Assim, tambm, urgia
evitar que o "interesse" do aluno -pea fundamental na nova
pedagogia -se transformasse em "paixo", princpio
"intempestivo" de "escolhas caprichosas" 152 .
Regrar a liberdade e coibir a paixo eram prticas sutis
de dosagem que se ordenavam pelo primado de ajustar "os homens


a novas condies e valores de vida 153 , como queria Loureno
Filho. Nelas, eficincia era o novo nome da disciplina, pois
"'eficincia com liberdade' ou 'liberdade com eficincia', -dizia
o mesmo Loureno -s num cadinho se fundem -e esse  o
da educao. Dificuldades ou defeitos de disciplina social e,
portanto, de eficincia. Perturbaes da eficincia -baixa das


condies de vida social e defeitos de disciplina." 154 .
O ajustamento dos homens a "novas condies e valores de
vida" exigia a produo de comportamentos adaptados a
funes, o que no significava uma dificuldade insupervel.


151 Loureno Filho, M. B. de -" A Escola Nova " in Educao. rgo da Diretoria Geral da Instruo
Pblica do Estado de So Paulo. So Paulo, junho de 1929, pp. 298-300, no. 3, v. 7.

152 Oliveira, Barbosa C. A. "A Unificao do Ensino Normal". Tese apresentada  Segunda
Conferncia nacional de Educao. In Jornal do Comrcio, Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1928.

153 Loureno Filho, M. B.-"Discurso na abertura da VII Conferncia Nacional de Educao" in Anais da VII Conferncia Nacional de Educao. Rio de Janeiro,
ABE, 1935, p. 22.

154 Loureno Filho, M. B.-"Discurso na abertura da VII Conferncia Nacional de Educao" in Anais da VII Conferncia Nacional de Educao. Rio de Janeiro,
ABE, 1935, p. 22.
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Como ensinava o mesmo Loureno Filho em sua Introduo ao
Estudo da Escola Nova,
"... a educao  obra social, na proposio de seus fins. A
sociedade a organiza, como aparelho capaz de continu-la, pelo
tempo e pelo espao. E cada sociedade s tem a educao que pode
ter. Mas, fixados esses fins, organizado o aparelho escolar,
chamadas a elas as crianas -a obra social vai ser realizada por
meios biolgicos de adaptao do comportamento, a esses fins
visados". 155 (grifos do autor)
Esse otimismo pedaggico conta com a natureza. Nas
representaes que o articulam a natureza infantil  matria
plstica e plasmvel, desde que respeitada em seu vir-a-ser
natural. Disciplinar no  mais prevenir ou corrigir. 
moldar.  contar com a plasticidade da natureza infantil, com
sua adaptabilidade, com sua capacidade natural de ajustamento
a fins postos pela sociedade. Por isso, esse otimismo conta,
mais do que com a natureza, com o poder disciplinarizador das
novas exigncias postas nos novos ritmos que a tcnica e a
mquina imprimem  sociedade. E, por isso, nenhuma frmula
condensa de modo mais abrangente a mutao que se opera no
campo da pedagogia -tanto no que diz respeito  relativa
autonomizao desse campo como  nova modalidade disciplinar
que nele se configura -do que a to polissmica e elptica
expresso "educar para a vida". Num dos seus usos mais
disseminados, "eficincia" era o novo nome da disciplina. E da
liberdade.


155 Loureno Filho, M. B. -Introduo ao Estudo da Escola Nova, ed. cit. P. 12.
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253
Sr. Preparador:
Aps este captulo ser
inserido mais um, o de
Mirian Jorge Warde que est
sendo concludo. Obrigado.
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..
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